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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Criança não namora




Eles podem chegar em casa, um dia, dizendo que têm um namoradinho ou uma namoradinha. A sua parte é explicar que namoro é coisa de adulto. Criança tem amigo. E ponto

Quando a criança começa a andar, a falar, a conhecer o mundo e, principalmente, o outro, passa a querer fazer o que todas as outras pessoas ao seu redor fazem. Andar de salto alto, passar maquiagem, usar o celular da gente, dirigir o carro da família... Namorar está na lista. Mas, assim como ela não vai pegar a chave e sair com o carro da garagem, não vai namorar de verdade, claro. Criança não namora. Tem amigos. Não dá para comparar o que os pequenos chamam de namoro com o relacionamento dos adultos. Isso é o fim.

Sim, as crianças estão cada vez mais expostas a mensagens inadequadas para a idade delas, a cenas com conteúdo sexualizado, tipo striptease na novela das seis. Mas não adianta desligar a TV na hora da novela se você não sabe preservar sua intimidade. Pai e mãe podem demonstrar afeição, mas nada de namorar na frente do filho. O psicanalista francês Marcel Rufo, autor do livro Tudo O que Você Jamais Deveria Saber sobre a Sexualidade dos seus Filhos, é enfático: “Papai e mamãe terem gestos de carinho um com o outro, ótimo. Mas os beijos insistentes, as palavras e as atitudes abertamente sexuais são chocantes, pois tornam evidente uma sexualidade dos pais que as crianças devem sempre ignorar”, diz.

Passar a falar que tem um namoradinho ou namoradinha na escola é sinal de que seu filho ou filha está se desenvolvendo normalmente. Quer dizer que ele já percebeu que não pode realizar a fantasia de namorar a mãe ou casar com o pai. “Dos 3 aos 6 anos, as crianças estão imersas em experiências de paixões, além de perceber as diferenças corporais entre homem e mulher”, explica a psicanalista Soraia Bento Gorgatti, mãe de Gabriel e membro do Instituto da Família. Ela conta que toda essa tensão relacionada à idade está ligada à fase do Complexo de Édipo. Com o tempo, eles percebem que os pais já têm companhia e procuram outro ′namoradinho′, na verdade um amigo mais especial. Amigo, certo?

O tal do “namoro”, como eles chamam, não tem de ir além de querer ficar perto, pegar na mão, abraçar... E só. Quando a coisa passa do limite é que os pais e professores precisam interferir. “Para que o desenvolvimento da criança siga um curso adequado, os adultos precisam colocá-la no seu devido lugar”, diz a psicoterapeuta Silvia Petrilli, filha de Risoleta. Ou seja: no lugar de criança. Cabe a nós explicar aos filhos que gente pequena NÃO namora, mas tem amigos, gosta e sente carinho por eles. Namoro mesmo, só depois de grande.

Nem incentivar nem proibir

Para que os pequenos entendam o que os adultos querem dizer, não dá para incentivar nem ficar falando no assunto o tempo todo. Pode ir tratando de esquecer aquelas brincadeirinhas do tipo “fala pra sua avó da sua namoradinha” ou “me conta, filha, você namora aquele menino bonitinho da sua sala?”. É aquela velha e boa medida do meio-termo: não pode incentivar nem reprimir demais.

Nada de fazer do namorico um assunto, porque não é. “Proibir nunca é uma boa estratégia quando se trata de sexualidade. Quanto mais bola os pais derem para o tema, mais eles reforçam o comportamento, pois a criança saca rapidinho como provocar os adultos”, afirma Maria Cecília Pereira da Silva, mãe de Marina e João, autora do livro Sexualidade Começa na Infância. Nosso papel é mostrar o que é certo e errado, não simplesmente reprimir as manifestações de afetividade.

Como o convívio com crianças da mesma idade começa mesmo na escolinha, é lá que a coisa pega mais. Isabela Andrade, filha de Eliana, tinha vários namoradinhos no colégio e causava até briga entre os meninos. Não teve jeito, a professora precisou interferir. “Quando o aluno começa a perturbar os coleguinhas, levantar a saia da menina ou brigar com os outros por causa do amigo, orientamos a criança e também os pais para que não incentivem esse tipo de atitude”, afirma Nilsa Barros Leal, mãe de Fernanda, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Humboldt. Mais uma vez, é questão de bom senso, que infelizmente nem todo mundo tem.

“Tem mãe que compra presente para o ′namoradinho′ da filha no Dia dos Namorados, ou então o pai que acha engraçadinho o filho levantar a saia das garotas”, conta Kátia Chedid, mãe de Rodrigo, Mateus e Leonardo.

Ajuda da escola

Para ajudar na difícil tarefa de lidar com a sexualidade infantil, algumas escolas oferecem palestras com especialistas. “Usamos essa oportunidade para conversar com os pais e fazer com que entendam e conheçam um pouco mais sobre o universo do filho”, explica Edimara de Lima, mãe de Cibele e diretora pedagógica da escola Prima. Por mais que seja um namoro de brincadeirinha, muitas vezes as crianças sofrem se o amigo não corresponde. Nesses casos, é preciso ter sensibilidade para explicar que esses sentimentos de tristeza também passam.

Um termômetro para saber se seu filho está passando bem por essa fase de descobertas é a brincadeira. “Toda vez que uma criança deixa de brincar devemos nos preocupar. Essa é a forma de ela dizer que algo não vai bem”, indica Maria Cecília. Repetindo: criança não namora, só brinca de namorar. E tem mesmo de aproveitar o sossego, porque depois cresce e a gente sabe bem como funciona esse negócio complicado que é gostar de alguém...

O QUE PODE E O QUE NÃO PODE
Pode: Pegar na mão, abraçar, dar beijo no rosto, fazer carinho e brincar junto.

Não pode: Brigar com os colegas por causa do amiguinho, beijar na boca, deixar de brincar com as outras crianças, ficar em cima do amigo o tempo todo ou achar que está namorando mesmo.


CONSULTORIA
Edimara de Lima, educadora e diretora pedagógica da escola Prima. edimara@primamontessoriana.com.br

Kátia Chedid, orientadora educacional da Educação Infantil do Colégio Dante Alighieri. Tel.: (11) 3179-4400

Maria Cecília Pereira da Silva, mestre em Psicologia da Educação Tel.: (11) 3081-9159

Nilsa Barros Leal, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Humboldt. Tel.: (11) 5686-4055

Silvia Petrilli, psicoterapeuta Tel.: (11) 3673-6568

Soraia Bento Gorgatti, psicanalista. Tel.: (11) 3031-1442

3 comentários:

Verônica Carvalho disse...

Oi Dinilso!!!

Vim aqui conhecer teu espaço e agradecer a vista!!
Um espaço bemmm legal .... parabens pelo trabalho

um abraço!
Verônica
ideiasemblog.blogspot.com

Claudia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Claudia disse...

Gostei do artigo e partilhei ... pois tive um episódio precoce em casa:

Meu filho de 6 anos chegou em casa e tive que ter esta conversa com ele, pois ele se sentiu na obrigação de ter uma namorada porque os alguns amigos tinham.
Eu expliquei que cada um faz o que acha bem fazer e devemos respeitar a opinião de cada um, pois cada um tem uma família diferente e todos são BONS pais, MAS que na nossa família pensamos que Escola não é lugar para namoros e que criança não namora... criança tem amigos, que namoro é coisa séria e que não se brinca de namorar, há quem não veja assim... MAS TAMBÉM NÃO É DA NOSSA CONTA, e não é por isso que deixamos de sermos amigos e gostar deles!!! Criança tem de ser criança criança. E não falei mais no assunto... É complicado!